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MAROUFLAGEM
1 – DEFINIÇÃO E COMPOSIÇÃO
Chamamos de marouflagem um suporte flexível (couro,
tela, papel, pergaminho, papiros etc...) colado sobre um outro suporte de
base, seja ele rígido ou flexível.
Os tipos de suporte de base podem ser papelão,
madeira maciça, painel constituído por fibras (madeira aglomerada) ou
partículas (MDF). As telas coladas sobre cartões, encontradas nos comércios
de materiais artísticos são um exemplo de marouflagem.
O que distingue o procedimento de marouflagem,
desenvolvido pelos restauradores no objetivo de garantir a reversibilidade
da colagem são a presença de uma camada de intervenção (papel jornal,
papel chinês, etc...) e a utilização de cola reversível.
Papel marouflado sobre a antiga pintura da abside da Catedral de Sorocaba.
As colas empregadas na marouflagem são variadas:
dispersão de resinas acrílicas, acetato de polivinila (PVA), branco de
chumbo e óleo, caseína, porém no procedimento que assegura
reversibilidade é utilizada a fórmula que contém cola de pele de coelho
e cola de farinha.
A marouflagem se desenvolveu a partir do procedimento
empregado pelos artistas no reforço das junções de suportes de madeira,
em painéis constituídos por diversas madeiras, que eram cobertos por um
indumento constituído de colas e fibras não tecidas.
2 - LEXICOLOGIA
Maroufle designa a cola utilizada para a técnica da
Marouflage. A palavra surge na Europa no começo do século XVI e
significa cola forte (marouf), em um neologismo que significa astúcia,
pulo do gato, derivando de maraud. O termo passa a ser utilizado no
feminino a partir de 1762, por convenção acadêmica.
3 - HISTÓRICO
Desde o Egito Helenístico, são marouflados tela,
pergaminhos e couro sobre madeira, assim como sobre esculturas policrômicas
e painéis pintados. A técnica parece ter sido desenvolvida para esconder
os pregos, fendas, junções e nós de madeira, escondendo-os da face da
obra. As junções são por vezes também maroufladas no verso. Existem
diversos casos de marouflagem parcial, existentes somente sobre os pontos
frágeis dos suportes.
Na metade do século XVI, G. Vasari escreve: “Por
medo que seus painéis apresentassem fendas nas junções, os velhos
mestres (pintores gregos da escola Bizantina) cobriam suas superfícies
com uma tela de linho fixada com cola de pele (de coelho). Eles preparavam
esta tela com um indumento de gesso, sobre o qual pintavam.” (VasVPA
La Peinture, cap. VI).
Na China, os objetos laqueados eram frequentemente
marouflados nas junções com papel de seda.
Nos séculos X e XI, Heraclius descreve a marouflagem
dos painéis com couro do cavalo, pergaminho e tela de linho (em Merrot
228-233).
Nos séculos XI e XII, Theófilo descreve a
marouflagem com a tela de linho e o cânhamo. (TheophiEDA 1, cap. XVII,
XIX).
Acerca do ano 1400, Cennino Cennini (Cennino LA cap
CXIV) descreve sendo a tela de linho o material mais aconselhado e mais
citado nos contratos.
No capítulo CXXXIII do Il libro dell´Arte, ele
escreve: “Tu podes também fazer como os (antigos) mestres, ou seja,
fixar a tela sobre todo o painel, antes de passar uma camada de gesso
(indumento).
Quanto à marouflagem do dorso, pode ter sido limitar
a flexão da madeira, para proteger dos insetos, e evitar apodrecimento em
contato com o muro.
Os inventários antigos mencionam que foi um
procedimento freqüentemente adotado pelos artistas até o século XV,
empregado ainda no séc. XVII por A. Van Dyck e P. P. Rubens.
Encolagem do papel com cola reversível.
São conhecidas obras sobre papel marouflado, como o estudo
de duas cabeças de homem, atribuídas a J. Jordaens (Museu de Belas
Artes de Gand) e um estudo de cabeça de mulher olhando o céu, de Van
Dyck (Kunsthistorisches Museu, Viena).
Os pintores do século XIX empregaram freqüentemente
a marouflagem em pequenos formatos.
Este procedimento permite ao pintor executar a obra
sobre papel e marouflar após, como também executar a obra sobre o papel
já marouflado.
Em 1829, J. N. Paillot de Montabert aconselha a
marouflagem de tela sobre tela, salientando: “desta forma, o pintor
consegue telas mais rígidas, fortes e inalteráveis”. Ele propõe a
impermeabilização do verso do painel com cera ou resinas naturais. E
afirma, que nesta época, procurava-se suportes maleáveis, fáceis de
enrolar.
Na re-edição (1766) do livro Elementos de Pintura
(pág. 168-169), de R. de Piles, a marouflagem é aconselhada para
toda pintura mural:
”Nem todas as espécies de colas são aconselhadas para este uso: até
este momento, nada se encontrou de melhor e com mais capacidade de
conservação da tela do que o ouro-pigmento tornado colante e espesso por
um longo cozimento: esta cola é chamada de maroufle”.
Paillot de Montabert escreve: “Apesar das vantagens
que oferece aos pintores a solidez dos muros e tetos, eles preferem freqüentemente
pintar suas obras sobre telas e depois fixar estas telas sobre o muro; e
como eles temem a umidade, que poderia alterar a aderência e a fixação
desta tela sobre o suporte que vai recebê-la, eles criaram um aglutinante
oleoso, que endurece com o tempo. Eles empregam óleos sicativos e
reduzidos ao estado de cola densa, ao qual dão o bizarro nome de maroufle.”
(Pail TCP 9; 123).
Ele aconselha também a marouflagem de uma tela fina
sobre uma tela forte empregando-se a cera (curiosamente sem adição de
resina).
Cennini fala também de painéis com pergaminho
marouflado, utilizados para o desenho com ponta de prata e preparados com
um indumento de gesso e branco de Prata à óleo, e branco de osso. (Il
libro dell´Arte cap. VI).
Em 1859, J. Andrew propõe a marouflagem de papel,
com cola de pele de coelho e farinha, sobre placas de zinco, utilizados
para servir como base para a marouflagem de suas pinturas aqua-pastel
sobre tela.
Os cartões entelados:
Paillot de Montabert assinala que os cartões podem
ser preparados quando cobertos com uma tela fina, o que parece ter sido
colocado no mercado por volta de 1870. O industrial F. Mommen os fabricava
desde 1875 em Bruxelas. Rowney o comercializa em 1878 e Winsor e Newton a
partir de 1884.
4 -
PROPRIEDADES
Os suporte marouflados adicionam um grau de
complexidade aos suportes simples. Normalmente, os dois suportes são
escolhidos para se completar. Por exemplo: O suporte rígido dá consistência
e solidez ao suporte mais maleável, que assegura por sua vez uma
maleabilidade e uma textura de superfície desejadas pelo pintor.
As variações Higrométricas devem ser levadas em
conta no momento de decidir a escolha dos suportes, pois a movimentação
de alguns materiais são opostas: enquanto o papel se tenciona, a tela se
distende.
De forma diversa, a movimentação de uma tela sobre
a madeira não ocasiona grande problemas, pois ela não é tencionada no
momento da marouflagem, ela é somente estendida, úmida, no momento da
marouflagem, quando seu momento de tensão é o mais forte. Além do que,
a tela, quando está entre a pintura e o suporte de madeira, sofre mais
lentamente as variações higrométricas, permitindo a utilização de
telas de algodão, e não somente as de linho.
4.1 - AS COLAS
As qualidades da cola da marouflagem são
primordiais, sem maroufle apropriada, não existe boa marouflagem.
Assim como em todo procedimento, os riscos de falhas crescem segundo o acréscimo
de complexidade. Se a cola for irregularmente aplicada ou se descolar em
locais, uma bolha pode ser formada. Um suporte muito rígido ou irregular
impõe suas formas ao suporte mais maleável.
Quando a cola não se altera, o envelhecimento dos
suportes maleáveis é lento, pois seu contato com o ar é reduzido, assim
como o contato com a poeira e a luz.
4.2 - A REVERSIBILIDADE
A estabilidade de uma marouflagem depende da resistência
da cola, porém a reversibilidade e a facilidade com a qual pode ser
desmontada em caso de restauração depende da natureza da cola.Para que
isto ocorra é imprescindível que a cola seja solúvel, ou seja, reversível.
É necessário também que a encolagem eventual e o
indumento (preparação para a pintura) não tenham a mesma solubilidade
que a cola, pois poderia ocorrer o risco de separação da camada pictural
do suporte direto. O ideal é que o solvente utilizado para dissolver a
cola não seja capaz de amolecer o deformar o suporte maleável
marouflado. As marouflagens com branco de chumbo à óleo são irreversíveis.
MAROUFLAGEM NA
CATEDRAL DE SOROCABA
A marouflagem que propomos para a abside da Catedral
Metropolitana de Sorocaba tem como principal objetivo a proteção e
preservação da obra já existente, garantindo a reversibilidade do novo
trabalho de arte sacra que será executado no local, que poderá ser
retirado por restauradores, no futuro, sem maiores problemas técnicos.
A FORMULA PROPOSTA
IMPERMEABILIZAÇÃO DA ABSIDE.
A parte superior da abside receberá um procedimento
de impermeabilização, para corrigir os problemas de infiltração do
telhado. Uma sub-cobertura é nossa proposta para assegurar que a abside
fique completamente estanque.
CONSOLIDAÇÃO DO SUPORTE
Todas as partes com trincas e com problemas de fixação
serão consolidadas, e as partes faltantes serão reinseridas, com
argamassa e retoques em trateggio.
A CAMADA DE INTERVENÇÃO
Uma camada de intervenção, de papel jornal, será
colada com cola reversível de CMC (carboxi-metil-celulose) utilizando
como anti-séptico o óleo de cravo, segundo o procedimento adotado pelos
restauradores nos faceamentos de camadas picturais. Por ser facilmente
reversível, garantimos desta forma a possibilidade futura de restauração
da obra atual, sem procedimentos complicados.
A PREPARAÇÃO DO SUPORTE DE PINTURA
O suporte de papel para a pintura será preparado em
técnica mista de encáustica (técnica da cera de abelha emulsionada no
carbonato de amônia, com adição de CMC e resina acrílica). O fundo
branco do papel já providenciará poder colorante branco ao suporte,
sendo o reforço da preparação importante para a interação entre as
camadas e para a tornar a pintura hidrófoba, sem criar estanqueidade. É
importante que a pintura respire.
A EXECUÇÃO DA PINTURA
A técnica empregada para a execução da pintura é
a técnica mista de tintas acrílicas e cera emulsionada, ideal para o
clima úmido e tropical, comprovadamente ideal para pintura mural, por não
possuir rebatimento de luz, por ser alcalina (não oxida como a técnica
à óleo), estável à luz e poluição atmosférica.
As características físico-químicas associadas à
esta técnica são as mais indicadas, perenes e resistentes, entre todas
as técnicas de pintura conhecidas na história das técnicas de Pintura.
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