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Histórias do atelier - El pajarito

por Sérgio Prata.

O nascimento do Parrarito:

O "parrarito" nasceu da boca do Lupe, um dos muitos vira-latas que já viveram na chácara, as 3 hs. da madrugada. Quando eu saí na varanda para observar as estrelas, observei algumas penas e restos de um passarinho na ardósia da varanda, e ouvi uns piados bem fracos... percebendo a cara de safado do vira-lata, mandei-o abrir a boca, e de lá, nascia o parrarito, de parto normal desabocanhado.

O paharito observa atentamente a pintura do ícone da Crucificação de São Pedro.

 

Foram semanas alimentando com papinha servida em seringa, depois pedaços de frutas em colher... até que o bichinho aprendeu a ficar solto, dentro de casa... durante o dia, aprendeu a voar. O sabiá do campo divertia-se pegando pedaços de mosaico, e até beliscava uns grãos de arroz durante a refeição, saltitando sobre as mesas da casa. Com o tempo, aprendeu a voar pelas redondezas e voltava logo, quando eu saía pela varanda chamando-o: Parrarito !! Parrarito !!! Vem pra casa !!

Por pouco não foi pego por um gavião, quando eu o deixei pousado no ipê amarelo, em frente da cozinha... Felizmente eu me movimentei e o gavião foi obrigado a desviar o seu vôo, que tinha um alvo preciso.

O "parrarito" ficou tão famoso, que até o filho de uma aluna Argentina, a Vírginia Revuelto, que veio estudar afrescos, logo ao chegar, o reconheceu:
- Mama, mira, el parrarito !!!

E com este tipo de piadinhas ingênuas, o convívio seguia... o pessoal de divertia com o sabiá-do-campo adestrado e domesticado, que ia de ombro em ombro, confraternizando com os visitantes. Tinha até apelido: el "parra-parra", que devia ser sempre pronunciado com o sotaque de los hermanos.

Deslocado dos demais de sua espécie, era perseguido sempre que era encontrado por um grupo de sua espécie, por ser um pássaro fora do normal, domesticado, um estrangeiro... apanhava feio dos outros sabiás-do-campo, que o estranhavam sempre, e muito. Apanhava paca´s. E eu era obrigado a sair correndo para espantar os demais e proteger o bicho indefeso.

Assim passaram-se meses de convívio, diversão, companheirismo...até que um belo dia, sem mais nem menos, ao chegar em casa, percebí que o parrarito sumiu. Suspense, apreensão, espera, chamados, saudades... e nada de parrarito.

Eu perguntei à Leda, nossa empregada do atelier, se ela havia visto o Parrarito, e ela disse que não, que ele havia sumido....saiu voando... então passei a chamá-lo da varanda, pois todos os sabiás-do-campo tinham a cara do parrarito... e a Leda passou a me acompanhar, nas diversas tentativas de reconhecimento do pássaro sumido. Subíamos à parte alta do terreno, e tocávamos a chamar:

- Parrarito !! Parrarito !!! Venga Parrarito !!! Olha, deve ser ele lá, lá em cima, na árvore do terreno vizinho... Que nada, ele não voltava mais voando, como sempre o fazia... a gaiola vazia, durante a noite... e os chamados, por mais de dois meses....

Cansada de chamar o "parrarito", um belo dia, Leda resolveu contar a verdade: o Parrarito foi abocanhado pela cadela "Monga Quasímoda", uma temível vira-lata feia e selvagem que rondava o atelier, e deste entrevero sobraram somente algumas penas dispersas sobre o gramado, que ela recolheu rapidamente, escondendo-as de mim, para evitar minha pena, que certamente seria maior....

E daí, então, tendo Lêda caído na armadilha de seu excesso de zêlo, só lhe restava chamar longamente pelo parrarito passeando pelo jardim, inventando um destino ou proa para o ser voante, até que o cansaço a vencesse. Percebendo, após alguns meses, que eu acabava por me consolar do sumiço del parra-parra, Leda finalmente deu o braço à torcer, e revelou o triste fim do sabiá desabocanhado. Ele foi re-abocanhado.

E assim acaba a história do meu amigo sabiá-do-campo, el Señor Pajarito, cuja fama chegava nos confins da Argentina.

Espero que agora, anos após sua partida, com este relato, sua fama fique maior, e ultrapasse fronteiras, e que, se alguém achá-lo, que o traga de volta. Ainda gostaria que a revelação da Leda fosse uma invenção.

Eu, por aqui, nunca mais consegui olhar um sabiá-do-campo com indiferença. Apesar de parecerem simples pardais de Itú, eles podem ser pássaros bem bacanas, amigo, companheiro.

Basta conviver com um deles, para saber. Valeu parra-parra. Você já faz parte da nossa história.

 

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